Inadimplência das famílias bate recorde: veja o impacto no bolso

A inadimplência das famílias voltou a chamar atenção no Brasil. Dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (29) mostram que a taxa de inadimplência das pessoas físicas no crédito com recursos livres chegou a 8,1% em setembro, novo recorde para esse indicador. O percentual representa alta de 0,1 ponto percentual em relação a agosto e de 1,2 ponto em 12 meses.

O cenário ocorre em um momento de juros elevados e aumento do endividamento das famílias. Em agosto, as dívidas das famílias correspondiam a 50,1% da renda acumulada em 12 meses, também recorde da série, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento das dívidas chegou a 29%.

Os números não significam que metade da renda das famílias esteja atrasada ou que todos os consumidores estejam inadimplentes. Os indicadores medem situações diferentes e precisam ser analisados em conjunto.

Pessoa organizando contas e despesas para controlar o orçamento

Inadimplência chega a 8,1% no crédito livre

O dado de 8,1% refere-se especificamente à inadimplência das pessoas físicas nas operações de crédito com recursos livres.

Esse segmento reúne modalidades nas quais as condições das operações são negociadas entre bancos e clientes. Entre os produtos estão linhas como crédito pessoal, cartão de crédito e cheque especial.

No conjunto do crédito livre, considerando pessoas físicas e empresas, a inadimplência ficou em 6,6% em setembro. Entre as empresas, o indicador recuou para 4,2%.

Quando são consideradas todas as operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional, incluindo recursos livres e direcionados, a inadimplência ficou em 5% em setembro. Entre as pessoas físicas, a taxa foi de 6%.

Portanto, o número de 8,1% não representa toda a carteira de crédito das famílias. Ele corresponde especificamente ao crédito livre destinado às pessoas físicas.

Endividamento das famílias também bate recorde

Outro indicador que chama atenção é o endividamento das famílias.

Segundo os dados do Banco Central, o endividamento chegou a 50,1% da renda em agosto, uma alta de 0,2 ponto percentual em relação a julho e de 1,2 ponto percentual em 12 meses.

Esse indicador compara o saldo das dívidas das famílias com a renda acumulada em 12 meses.

Na prática, isso não significa que uma família esteja necessariamente com metade da renda comprometida com parcelas naquele momento.

Uma pessoa pode ter um financiamento imobiliário, um empréstimo ou outras dívidas e continuar pagando tudo em dia.

Por isso, endividamento e inadimplência não são sinônimos.

Qual é a diferença entre endividamento e inadimplência?

O endividamento mostra a relação entre o total das dívidas e a renda das famílias.

Já a inadimplência está relacionada aos pagamentos que estão em atraso, considerando os critérios utilizados nas estatísticas de crédito do Banco Central.

Isso significa que uma família pode estar endividada sem estar inadimplente.

O problema fica maior quando o volume das parcelas aumenta, os juros ficam elevados e uma parcela crescente da renda passa a ser destinada ao pagamento das dívidas.

Nesse cenário, uma redução da renda ou uma despesa inesperada pode dificultar o pagamento das prestações.

Comprometimento da renda chegou a 29%

O Banco Central também registrou aumento no comprometimento da renda das famílias.

Em agosto, o indicador chegou a 29%, acima dos 28,8% registrados em julho. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, houve alta de 1,4 ponto percentual.

Esse indicador ajuda a mostrar quanto da renda das famílias está comprometido com o serviço das dívidas.

Para o consumidor, o número é importante porque quanto maior a parcela da renda destinada ao pagamento de empréstimos e financiamentos, menor tende a ser o espaço disponível no orçamento para despesas essenciais e imprevistos.

Para entender outro impacto dos indicadores econômicos no orçamento familiar, veja também como o IGP-M pode afetar os contratos de aluguel.

Juros elevados aumentam a pressão

O cenário de inadimplência também ocorre em um ambiente de crédito caro.

Em setembro, a taxa média das novas operações de crédito chegou a 32,4% ao ano. No crédito livre, a taxa média ficou em 49% ao ano.

Entre as pessoas físicas, a taxa média do crédito livre chegou a 62,4% ao ano, com alta de 0,6 ponto percentual em relação a agosto e de 3,7 pontos em 12 meses.

Isso significa que novas dívidas podem ter um custo elevado, principalmente em modalidades de crédito sem garantia e em operações utilizadas para cobrir despesas de curto prazo.

Por isso, antes de contratar um novo empréstimo para pagar uma dívida antiga, o consumidor precisa comparar o custo total das alternativas.

Cartão, cheque especial e crédito pessoal exigem atenção

As modalidades de crédito de uso mais rápido podem representar um risco maior para o orçamento quando utilizadas sem planejamento.

O cartão de crédito, o cheque especial e algumas linhas de crédito pessoal podem apresentar custos elevados, especialmente quando o consumidor deixa de pagar a fatura integral ou permanece utilizando o limite por períodos prolongados.

No caso do cheque especial, por exemplo, o custo pode ser significativamente superior ao de modalidades com garantia ou empréstimos renegociados.

Por isso, quem já possui dívidas deve evitar utilizar uma nova linha de crédito simplesmente para adiar o problema.

A comparação entre juros, prazo, parcela e custo total é fundamental antes de qualquer decisão.

O que fazer quando as dívidas começam a pesar?

O primeiro passo é colocar todas as dívidas no papel.

O consumidor deve listar:

  • valor total de cada dívida;
  • valor das parcelas;
  • taxa de juros;
  • número de parcelas restantes;
  • vencimento;
  • existência ou não de atraso.

Depois disso, é possível identificar quais dívidas possuem o maior custo financeiro.

Em muitos casos, uma renegociação pode reduzir a taxa de juros ou ampliar o prazo de pagamento, diminuindo o valor das parcelas.

Porém, alongar uma dívida pode aumentar o total pago ao final do contrato. Por isso, é importante comparar o custo total antes de aceitar uma proposta.

Evite assumir uma nova dívida para pagar outra

Quando o orçamento fica apertado, pode surgir a tentação de contratar um novo empréstimo para quitar uma dívida antiga.

Essa estratégia pode funcionar em algumas situações, mas somente quando o novo crédito apresenta condições realmente melhores.

Se a nova operação tiver juros elevados e apenas aumentar o prazo da dívida, o consumidor pode acabar pagando mais no longo prazo.

Uma alternativa é procurar primeiro uma renegociação diretamente com a instituição financeira e comparar outras opções de crédito com custo menor.

Banco Central criou novas regras para ofertas de crédito

O Banco Central também anunciou novas regras para aumentar a transparência na oferta de empréstimos e reduzir o risco de superendividamento.

Entre as medidas estão ferramentas para consulta de dívidas, simulações de custos e alertas de risco antes da contratação de determinadas operações.

As novas regras também estabelecem mecanismos para que consumidores possam controlar ofertas de crédito e receber informações mais claras sobre o impacto financeiro de novos empréstimos.

A implementação das medidas ocorrerá ao longo de 2027.

A intenção é permitir que o consumidor tenha mais informações antes de assumir novas obrigações financeiras.

Número de consumidores em situação de risco preocupa

O Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central também apontou aumento dos ativos problemáticos das famílias, com a inadimplência como um dos principais fatores.

O documento identificou 20,3 milhões de brasileiros classificados como endividados de risco, grupo que reúne pessoas que apresentam determinados sinais de maior vulnerabilidade financeira.

Essa classificação, porém, não significa que todas essas pessoas estejam inadimplentes.

O conceito considera diferentes critérios relacionados à capacidade de pagamento, como atrasos prolongados, elevado comprometimento da renda e uso simultâneo de modalidades de crédito.

O objetivo é identificar consumidores que podem apresentar maior dificuldade para manter suas obrigações financeiras.

Como evitar que a dívida saia do controle?

Alguns cuidados podem ajudar a evitar o agravamento do endividamento.

O primeiro é não comprometer uma parcela excessiva da renda com prestações.

Também é importante manter uma reserva para despesas inesperadas, evitar o uso frequente do cheque especial e pagar o cartão de crédito dentro do vencimento sempre que possível.

Antes de contratar um empréstimo, o consumidor deve comparar o Custo Efetivo Total (CET), e não apenas a taxa de juros anunciada.

O CET inclui juros, tarifas, impostos e outros custos envolvidos na operação.

Dessa forma, é possível comparar propostas diferentes de maneira mais adequada.

O que os números mostram para o consumidor?

Os dados divulgados nesta quinta-feira mostram um cenário que exige atenção.

A inadimplência das pessoas físicas no crédito livre chegou a 8,1% em setembro, enquanto o endividamento das famílias alcançou 50,1% da renda em agosto e o comprometimento chegou a 29%.

Ao mesmo tempo, os juros continuam elevados, tornando novas operações de crédito mais caras.

Isso não significa que todas as famílias estejam enfrentando dificuldades financeiras, mas mostra que o orçamento de uma parcela dos consumidores está mais pressionado.

Para quem já possui dívidas, o momento exige planejamento e cuidado antes de assumir novos compromissos.

Planejamento pode evitar o agravamento das dívidas

O aumento da inadimplência reforça a importância de acompanhar o orçamento doméstico e conhecer o custo de cada dívida.

Quem percebe que as parcelas estão comprometendo uma parte cada vez maior da renda pode procurar alternativas de renegociação antes que os atrasos se acumulem.

Também é importante evitar decisões tomadas apenas para resolver uma dificuldade imediata.

Uma nova dívida pode aliviar o orçamento por alguns meses, mas, se tiver juros altos, poderá aumentar o problema posteriormente.

Leia também: acompanhe outras informações sobre crédito, bancos e finanças pessoais no Ponto do Dinheiro.

O cenário atual mostra que o crédito continua sendo uma ferramenta importante para as famílias, mas precisa ser utilizado com planejamento. Com juros elevados e maior comprometimento da renda, entender o custo das operações e manter as parcelas dentro do orçamento se torna ainda mais importante.

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